ANABOLIZANTES E CORAÇÃO
Anabolizantes podem causar cardiomiopatia hipertrófica e morte súbita, alertam especialistas
Fisiculturista de 22 anos faleceu após complicação cardíaca. Especialistas explicam como o uso dessas substâncias pode levar a alterações graves no músculo cardíaco, arritmias e risco de óbito. A doença pode ser silenciosa.
A cardiomiopatia hipertrófica, doença que leva ao espessamento das paredes do coração, foi apontada como a causa da morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, em laudo divulgado nesta segunda-feira, 25 de maio de 2026. Embora o documento não estabeleça ligação direta com o uso de hormônios, especialistas alertam que anabolizantes podem desencadear alterações estruturais no músculo cardíaco, aumentando o risco de arritmias fatais e morte súbita.
O coração, assim como outros músculos do corpo, responde aos anabolizantes, mas seu crescimento desordenado, estimulado por essas substâncias, pode comprometer sua função vital. Elzo Mattar, diretor do departamento de hipertensão arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia, explica que o músculo cardíaco passa a trabalhar contra uma resistência maior, sofrendo hipertrofia de forma desorganizada. Esse crescimento exagerado diminui o espaço interno do ventrículo, dificultando o bombeamento de sangue.
Ricardo Katayose, cirurgião cardiovascular da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, compara o problema a uma sala cujas paredes se adiantam para dentro, reduzindo o espaço útil. O resultado é um coração mais rígido e com dificuldade para impulsionar o sangue, especialmente sob esforço físico. A cardiomiopatia hipertrófica pode ter origem genética, sendo uma causa comum de morte súbita em jovens atletas, mas também pode ser adquirida ou agravada por condições como hipertensão e uso de esteroides anabolizantes.

O perigo não se limita ao tamanho do músculo. Segundo Mattar, a rede de vasos sanguíneos que irriga o coração nem sempre acompanha o crescimento rápido. Células com menos oxigênio sofrem lesões e morrem, dando lugar a áreas de fibrose – cicatrizes permanentes que alteram a circulação dos impulsos elétricos. Essa fibrose funciona como um substrato para arritmias, onde os sinais elétricos podem sofrer bloqueios ou desvios, desencadeando ritmos anormais e potencialmente fatais.
Frequentemente silenciosa, a cardiomiopatia hipertrófica pode passar anos sem apresentar sintomas. A primeira manifestação pode ser a morte súbita. Quando surgem, os sinais mais comuns incluem falta de ar, dor no peito, palpitações, tontura e desmaios. Médicos recomendam atenção especial a jovens atletas com histórico de síncopes e a investigação de familiares em casos de mortes súbitas na família, devido à possibilidade de herança genética.
O mecanismo que leva ao óbito geralmente envolve arritmias ventriculares graves, como taquicardia e fibrilação ventricular. Nesses casos, o coração para de contrair de forma coordenada, perdendo a capacidade de bombear sangue para o cérebro e outros órgãos. Katayose ressalta que, sem circulação eficiente, a parada cardiorrespiratória é iminente se o ritmo cardíaco não for revertido rapidamente. O esforço físico intenso pode ser um gatilho frequente em indivíduos predispostos.
A dificuldade em prever como cada organismo responderá à exposição prolongada a anabolizantes é um dos motivos de preocupação. Fatores como genética, pressão arterial, intensidade dos treinos, tempo de uso e doses empregadas influenciam o risco. A ausência de sintomas não garante a ausência de danos; o processo pode avançar silenciosamente, culminando em arritmia, infarto ou insuficiência cardíaca.
Os efeitos cardiovasculares dos esteroides vão além do crescimento do músculo cardíaco. Eles podem elevar a pressão arterial, alterar o colesterol, aumentar a tendência à coagulação e danificar a microcirculação do coração, favorecendo a formação de trombos. Um usuário pode apresentar uma vida aparentemente normal e, subitamente, desenvolver trombose coronariana aguda, evoluir para infarto e sofrer morte súbita, como adverte Mattar. Especialistas destacam que o risco é frequentemente percebido apenas quando os sintomas se manifestam ou em casos de grande repercussão.
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário