METODOLOGIA VIRA ARMA
TSE suspende pesquisa AtlasIntel em meio a disputa eleitoral pelo Planalto
Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, atendeu pedido do PL e questionou levantamento que aponta avanço de Lula e queda de Flávio Bolsonaro.
A metodologia de uma pesquisa eleitoral da AtlasIntel tornou-se o centro de uma nova disputa pelo Palácio do Planalto. Nesta terça-feira, 09/06/2026, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, suspendeu a divulgação de um levantamento a pedido do Partido Liberal (PL). A decisão, motivada por questionamentos sobre a condução da pesquisa e possível indução de entrevistados, eleva o debate sobre a atuação da Justiça Eleitoral em processos de levantamento de opinião pública.
O levantamento, publicado em 19 de maio, foi suspenso não por falhas formais de registro, como é usual em ações judiciais sobre pesquisas, mas pela suspeita de que a estrutura e a aplicação do questionário possam ter influenciado as respostas, gerando percepções negativas sobre o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL). Segundo o ministro, a forma como as perguntas foram formuladas poderia ter impactado a opinião dos eleitores.
A medida gerou reações entre aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Alguns classificam a ação do PL como tentativa de censura e ressaltam que a pesquisa já circulou amplamente, configurando um entendimento de domínio público. A questão central para as pré-campanhas é definir os limites da atuação do TSE no escrutínio de metodologias de institutos e o precedente que a decisão pode estabelecer para futuras contestações na corrida presidencial de 2026.
A pesquisa em questão foi a primeira divulgada após a revelação de conversas entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O levantamento indicou um avanço de Lula nas intenções de voto para o primeiro turno, uma queda na preferência por Flávio Bolsonaro e uma vantagem do petista em um eventual segundo turno.
Aliados de Flávio Bolsonaro argumentam que a pesquisa continha perguntas consideradas controversas e que um áudio divulgado pelo Intercept Brasil, envolvendo o senador e Vorcaro, teria sido apresentado aos entrevistados. Segundo essa perspectiva, o conteúdo do áudio poderia ter influenciado negativamente a opinião dos participantes sobre o pré-candidato.
A AtlasIntel refuta qualquer alegação de indução. O instituto esclarece que o áudio não fez parte do questionário principal, sendo apresentado apenas ao final da entrevista para reações espontâneas de participantes que optaram por manifestar-se. A empresa garante que, após o registro das respostas, os entrevistados não podiam retornar a perguntas anteriores nem alterar suas declarações.
Na decisão, Nunes Marques ressaltou que pesquisas anteriores da AtlasIntel apresentavam formatos distintos e citou declarações do CEO do instituto, Andrei Roman. O ministro interpretou que Roman teria admitido um 'viés político do conteúdo submetido aos entrevistados' e emitido juízo de valor sobre o potencial de desgaste do áudio para Flávio Bolsonaro. Essas falas de Roman ocorreram após a realização e divulgação pública da pesquisa.
A liminar exige que a AtlasIntel forneça documentação técnica complementar, e o Ministério Público Eleitoral também será consultado. Há expectativa de que o caso seja apreciado pelo plenário do TSE ainda nesta terça-feira (9).
O episódio ganha contornos adicionais pela forma como a ação tramitou na Corte. Menos de um mês após assumir a presidência do TSE e poucos dias após a representação do PL, Nunes Marques modificou a regra de distribuição de ações de propaganda eleitoral ligadas à disputa presidencial. A alteração incluiu o próprio presidente do tribunal e o ministro André Mendonça, ambos indicados ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro, como possíveis relatores de processos.
Após um novo sorteio, a ação contra a AtlasIntel foi distribuída ao próprio Nunes Marques, que posteriormente concedeu a liminar para suspender a divulgação da pesquisa.
A controvérsia surge em um momento delicado para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Desde a divulgação do levantamento, outras pesquisas indicaram perda de apoio ao senador. Nos bastidores, o pré-candidato busca dissociar sua imagem de Daniel Vorcaro e readequar sua campanha, incluindo planos de visita aos Estados Unidos para se encontrar com Donald Trump.
Entretanto, a decisão do TSE reacende a ligação entre Flávio e o ex-banqueiro no debate público. Parlamentares do PT avaliam que o episódio resgata um tema que a campanha de Flávio tentava deixar para trás, podendo, segundo eles, vir a prejudicar os próprios bolsonaristas.
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