ALERTA NACIONAL
The Lancet revela: 11 milhões de mulheres sofrem violência no Brasil
Estudo Global Burden of Disease aponta 18,5 milhões de anos de vida perdidos por morte precoce ou incapacidade em 2023.
Um levantamento internacional trouxe à luz uma realidade chocante: cerca de 11 milhões de mulheres brasileiras foram vítimas de violência de parceiro íntimo somente em 2023. Os dados, que fazem parte do abrangente estudo Global Burden of Disease e foram publicados na renomada revista científica The Lancet, expõem um cenário onde entre 10% e 14% das brasileiras com 15 anos ou mais enfrentam essa grave violação. A pesquisa, revelada nesta terça-feira, 05 de maio de 2026, posiciona a violência como um dos principais fatores de risco à saúde de mulheres e uma 'epidemia silenciosa' que se alastra, comprometendo a dignidade e o bem-estar social.
Embora o Brasil se situe em um patamar intermediário no cenário global, próximo a outros países da América Latina, a pesquisa alerta que a violência de gênero permanece disseminada e recorrente. Mundialmente, aproximadamente uma em cada cinco mulheres já sofreu violência de parceiro íntimo ao longo da vida, um número que, no Brasil, afeta ao menos uma em cada dez, podendo chegar a uma em cada sete, dependendo do recorte analisado.
Os números consolidados do estudo são avassaladores: 608 milhões de mulheres com 15 anos ou mais já vivenciaram esse tipo de violência globalmente. Além disso, 1,01 bilhão de pessoas, incluindo homens e mulheres, reportaram ter sofrido violência sexual durante a infância. Tais estatísticas reforçam a dimensão de uma crise humanitária subestimada.
A violência, conforme a análise, transcende o momento do episódio e deixa marcas duradouras. Em 2023, a violência por parceiro íntimo foi responsável por uma perda de 18,5 milhões de anos de vida entre mulheres, seja por morte precoce ou incapacidade. Já os casos de violência sexual na infância somaram 32,2 milhões de anos de vida perdidos. Na prática, isso coloca a violência como um dos principais fatores de risco à saúde de mulheres na faixa etária entre 15 e 49 anos, impactando drasticamente sua qualidade e expectativa de vida.
João Maurício Castaldelli-Maia, psiquiatra da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coautor do estudo, expressa a gravidade da situação. “Mesmo para quem trabalha com o tema, ver mais de 600 milhões de mulheres expostas à violência por parceiro e mais de 1 bilhão de pessoas com história de violência sexual na infância mostra a dimensão populacional do problema. Estamos diante de uma epidemia silenciosa”, alerta o especialista.
As consequências dessa violência manifestam-se de diversas formas de adoecimento. “Ela se traduz em anos de vida perdidos por morte precoce ou vividos com incapacidade, muitas vezes associados a depressão, ansiedade, automutilação e uso de substâncias”, detalha Castaldelli-Maia, sublinhando o profundo impacto na saúde mental e física das vítimas.
Quando a violência atinge a infância, os efeitos são ainda mais profundos. A exposição durante fases críticas do desenvolvimento pode alterar irremediavelmente trajetórias emocionais e sociais. “Esse tipo de violência acontece em um período crítico do desenvolvimento cerebral e pode afetar vínculos, autoestima e resposta ao estresse, aumentando o risco de sofrimento mental e de novas situações de violência ao longo da vida”, explica o professor, evidenciando o ciclo vicioso que a violência pode gerar.
Para Juliana Brandão, pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados reforçam que a violência não é um evento isolado, mas sim um fenômeno persistente e estrutural. “O que aparece é uma violência que se mantém, que não desaparece com o tempo. Isso mostra que estamos diante de um fenômeno estrutural, que exige respostas também estruturais”, afirma.
No Brasil, a violência de gênero revela recortes ainda mais complexos. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que 64,2% das vítimas são mulheres negras, apontando para profundas desigualdades na exposição ao risco. “Quando a gente fala de violência no Brasil, precisa considerar a seletividade racial. As mulheres negras estão proporcionalmente mais expostas”, contextualiza Brandão.
Outro ponto crítico levantado pelo estudo e por especialistas é a subnotificação. Apesar dos ajustes metodológicos, muitos casos não chegam ao conhecimento das autoridades. “Na maior parte das vezes, o agressor está no círculo íntimo. Denunciar envolve medo, culpa e, muitas vezes, dependência econômica”, esclarece a pesquisadora, revelando os obstáculos que impedem as vítimas de buscar ajuda.
Este cenário de subdimensionamento persiste mesmo com a redução de alguns índices gerais de criminalidade no Brasil. A violência de gênero, contudo, segue um caminho distinto, com os registros de feminicídio em contínuo crescimento. “Quando olhamos para esse recorte específico, o que se vê é aumento ano a ano. Isso mostra que não basta reduzir a violência de forma geral”, avalia Brandão. A análise ressalta a urgência de políticas públicas amplas, focadas em prevenção, proteção e na garantia de autonomia para as vítimas. “Sem políticas que garantam condições reais para que essas mulheres rompam o ciclo da violência, o padrão tende a se repetir”, conclui a especialista, clamando por ações efetivas para quebrar este ciclo devastador.
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