DINHEIRO SUJO
Polícia Civil apura R$ 5,6 milhões movimentados por empresário da saúde com intermediários do PCC
Empresário de saúde, com contratos milionários em Goiás, é investigado por repasses a facção criminosa e suspeita de lavagem de dinheiro. Empresas negam irregularidades.
A Polícia Civil de São Paulo investiga se um conjunto de empresas, supostamente controladas pelo empresário Thiago Telles, movimentou R$ 5,68 milhões com intermediários do Primeiro Comando da Capital (PCC) entre 2023 e 2025. A suspeita é de que existia um esquema para lavar dinheiro proveniente de tráfico de drogas, jogos de azar e golpes, conforme aponta um relatório obtido pelo Metrópoles. Parte dessas empresas mantém contratos com hospitais públicos em Goiás.
Segundo levantamento de comprovantes bancários apreendidos em celulares durante a operação "Falso Mercúrio", em dezembro passado, o grupo empresarial teria pago R$ 3,8 milhões a operadores do PCC e recebido R$ 1,8 milhão deles. Para a investigação, os repasses de Telles visavam a obtenção de dinheiro em espécie do PCC, em troca do qual criminosos devolviam o montante após descontar uma taxa de 4%.
Thiago Telles foi alvo de busca e apreensão na operação "Falso Mercúrio", que teve desdobramentos na sexta-feira, 29/05/2026, com a operação "Falsa Las Vegas". Nas redes sociais e no site do Lide, Telles se apresenta como "sócio" e "diretor de novos negócios" da L2D Telemedicina e "presidente da Medplus", nome fantasia da Mediplus Serviços Médicos. A polícia, contudo, o considera um "operador" da segunda empresa e um dos "beneficiários finais" de um esquema de lavagem de dinheiro da facção. Telles, ao lado de Luiz Fernando Donke, integrante do comitê gestor do Lide Campinas, foi sócio da matriz da TL2 Soluções Médicas até agosto de 2024. No ano anterior, o cadastro de duas filiais da empresa em seu nome foi suspenso pela Receita Federal.
Firma contratada por Goiás enviou R$ 2 milhões ao PCC
Em dezembro, Telles e a Mediplus já haviam sido alvos de busca e apreensão por ordem do juiz Paulo Fernando Deroma, da 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro de São Paulo. Diálogos e planilhas obtidos pela 3ª Delegacia de Fraudes Financeiras e Econômicas da Polícia Civil indicam que os criminosos se referiam a Telles como "Tom Cruise".
A Mediplus figura tanto em negócios com o governo de Goiás quanto com o PCC. A empresa presta serviços a hospitais do governo goiano administrados pelo Imed, tendo recebido R$ 37 milhões entre 2020 e 2025. Paralelamente, entre 2023 e 2024, a Mediplus pagou R$ 2,3 milhões a intermediários do PCC e recebeu R$ 553 mil deles, segundo a Polícia Civil.
Empresa pagou em data coincidente
Outra empresa de saúde com contratos com o governo de Goiás, a Medic360 Serviços Médicos, também aparece em comprovantes de pagamento trocados entre intermediários do PCC. A polícia mencionou os pagamentos à Medic360, mas não a relacionou diretamente a Telles ou a outros investigados. Em 2025, a Medic360 recebeu R$ 34 milhões do governo de Goiás via Imed. No dia 16 de abril de 2024, data em que a Mediplus, supostamente operada por Telles, pagou R$ 361 mil a intermediários, a Medic360 realizou um pagamento de R$ 426 mil a eles. A transferência bancária foi direcionada a uma empresa de compra e venda de carros, a "R. Braga Comércio de Veículos" (Keycar), que apresentou R$ 1,4 milhão em operações atípicas suspeitas, segundo o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Essa empresa e a "Braga Administração de Bens" são apontadas pela polícia como intermediárias do PCC.
Procuradas pelo Metrópoles, a Medic360 e a Mediplus não explicaram os motivos dos pagamentos às empresas ligadas à facção.
Telles, Donke e diretora estavam com Caiado no Lide
Thiago Telles e Luiz Donke participaram de um evento do Lide em 2024, ao lado do então governador Ronaldo Caiado e da diretora do Imed, Maria Caroline Lazarini Dias. O governo de Goiás possui contratos com o Imed, que, por sua vez, subcontratou empresas ligadas a Telles e Donke. Essas empresas faziam parte da cúpula da instituição que convidou Caiado para palestrar.
Em 2023, a L2D, formalmente pertencente a Telles e Fernando Donke, faturou R$ 53 milhões, conforme anúncio pago na revista Lide. Em 2024, o faturamento saltou para R$ 117,8 milhões, um aumento de 120%. A empresa projeta crescer 500% nos próximos cinco anos, expandindo para áreas como telemedicina veterinária e aplicativos de qualidade de vida.
A TL2 e a L2D receberam R$ 171 milhões do governo de Goiás por meio de hospitais públicos administrados pelo Imed entre 2019 e 2026. Durante o período em que Telles integrou a sociedade dessas empresas, os repasses ultrapassaram R$ 93 milhões. Em 2022, a Mediplus e a TL2, ambas ligadas a Telles, disputaram a prestação de serviços em uma UPA de Anápolis (GO) contra uma empresa do médico Hilton Picelli, figura central em um esquema de "planilha da propina" em Goiás. A TL2 venceu a licitação, conforme aponta a defesa da organização social de saúde em um processo trabalhista movido pelo Ministério Público.
Empresas negam irregularidades
Mediplus, Medic360 e L2D Telemedicina negaram qualquer irregularidade. Ronaldo Caiado afirmou que sua relação com Maria Caroline Lazarini era estritamente profissional e atribuiu à falha do governo federal em alertá-lo sobre possíveis crimes de fornecedores a responsabilidade pela situação. A assessoria da Mediplus declarou que a empresa "não praticou nenhum ato ilícito e pauta sua atuação seguindo rigorosamente os princípios legais vigentes", reafirmando não ter relação com Caiado e apenas um contato "estritamente profissional" com a diretora do Imed. A Medic360 rebateu, afirmando "não integrar qualquer investigação, não ser alvo de apuração por órgãos de controle e não possuir conhecimento sobre eventual envolvimento ilícito de empresas ou pessoas citadas no e-mail encaminhado à companhia". A L2D Telemedicina declarou que seus contratos seguem "critérios técnicos e legais" e que desconhece o conteúdo da investigação, "não praticou atos que comprometam sua atuação ou reputação profissional". A TL2 e Thiago Telles não se pronunciaram.
Intermediários do PCC movimentam dinheiro vivo
A Polícia Civil de São Paulo detalha que os intermediários do PCC movimentam vultuosas quantias em dinheiro vivo, utilizando empresas como "fachada" para a lavagem de dinheiro, muitas vezes dissimulada com a compra de veículos de luxo e outros bens de alto valor. A investigação aponta que outras empresas ligadas a Thiago Telles, como "Suzupaper Com. de Papelaria" e "L&C Com de Papelaria", além da Mediplus, participavam de licitações públicas. A Secretaria de Saúde de Goiás informou ao Metrópoles que encaminha suspeitas de irregularidades na administração terceirizada de seus hospitais às autoridades, demonstrando "compromisso da atual gestão com a transparência, o fortalecimento dos mecanismos de controle e a política de tolerância zero contra qualquer indício de irregularidade ou mau uso do dinheiro público".
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