DIREITOS GARANTIDOS

PL sobre diabetes tipo 1: especialistas detalham o que muda para pessoas com a condição

Fachada da Câmara dos Deputados em Brasília.
Projeto de lei aprovado na Câmara dos Deputados visa ampliar direitos de pessoas com diabetes tipo 1.

Projeto de lei aprovado na Câmara visa simplificar burocracia e assegurar amparo legal para portadores de diabetes tipo 1 em escolas e ambientes de trabalho. Mudanças impactam o cotidiano e a dignidade dos pacientes.

Um novo projeto de lei (PL 5868/25), aprovado pela Câmara dos Deputados e agora em análise para sanção presidencial, promete expandir e consolidar direitos de pessoas com diabetes tipo 1 em contextos escolares e laborais. A iniciativa busca não apenas facilitar o exercício dessas garantias, mas também reduzir a complexidade burocrática para sua obtenção, impactando diretamente a dignidade e a autonomia dos indivíduos.

Especialistas em Direito à Saúde e advocacy destacam a relevância das alterações propostas. Maria Eloisa Malieri, advogada com foco em Direito à Saúde, e Vanessa Pirolo, presidente do Vozes do Advocacy e da Federação de Associações e Institutos de Diabetes e Obesidade, explicam à CNN Brasil as transformações que o projeto pode acarretar para a vida de quem convive com diabetes tipo 1.

Caso sancionado, o projeto de lei estabelece que portadores de diabetes tipo 1 terão o direito a pausas em ambientes de trabalho e estudo. Essas pausas são essenciais para monitorar a glicemia, administrar insulina, fazer refeições e atender outras necessidades decorrentes da condição crônica.

"Muitos desses direitos hoje dependem da compreensão de empregadores, escolas ou instituições. Com a aprovação do projeto, eles passam a ter respaldo legal mais claro e estruturado", esclarece Maria Eloisa. As novas normativas exigirão que empresas e instituições de ensino ofereçam a estrutura necessária para o tratamento adequado e o pleno exercício desses direitos, garantindo que as necessidades de saúde sejam atendidas sem barreiras.

A legislação visa combater a invisibilidade enfrentada por muitas pessoas com diabetes tipo 1, que frequentemente se veem obrigadas a justificar cuidados básicos relacionados ao seu próprio tratamento, um fardo que afeta sua dignidade e bem-estar diário.

Menos burocracia para o dia a dia

Fruto de uma colaboração com o Vozes do Advocacy — que congrega 25 associações e dois institutos ligados à Federação de Associações e Institutos de Diabetes e Obesidade — o PL 5868/25 também propõe a simplificação da comprovação da doença. O laudo médico atestando o diabetes tipo 1 passará a ter validade indeterminada, um avanço significativo que elimina a necessidade de renovações constantes para uma condição permanente.

Vanessa Pirolo acrescenta que pais e cuidadores de pessoas com DM1 poderão solicitar adequações nos horários de trabalho e jornadas para acompanhar o tratamento. Outra proposta relevante é a inclusão da informação sobre a condição na CIN (Carteira de Identidade Nacional), facilitando o reconhecimento dos direitos e servindo como um alerta em situações de emergência.

O acesso a medicamentos e insumos essenciais, como os necessários para aplicação de insulina e monitoramento de glicemia, disponíveis no SUS (Sistema Único de Saúde), continuará dependendo apenas do laudo médico. Contudo, a concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC) manterá a exigência de avaliação específica, considerando a incapacidade laboral ou vulnerabilidade socioeconômica, em conformidade com o modelo biopsicossocial adotado pela legislação brasileira, que analisa o impacto da condição na funcionalidade e participação social do indivíduo.

O projeto ainda assegura o porte e o uso de glicosímetros, sistemas de monitoramento contínuo de glicose, bombas de insulina e outros insumos vitais para o tratamento em instituições de ensino e no trabalho, reforçando a clareza dos direitos para pessoas com diabetes tipo 1.

Aplicação dos direitos e preparo dos ambientes

Embora algumas das medidas propostas já existam de forma isolada, o PL 5868/25 busca consolidá-las e dar-lhes maior respaldo legal. Impedir o uso de sensores de glicose ou a aplicação de insulina no ambiente de trabalho é considerado discriminação, mas muitas vezes a ausência de punição efetiva ocorre pela falta de clareza jurídica. "O PL 5868 busca justamente preencher essa lacuna e dar maior segurança jurídica para pessoas com diabetes tipo 1 e suas famílias", afirma Malieri.

Uma ressalva importante é a necessidade de os ambientes estarem preparados para acolher essa população, com profissionais capacitados e espaços adequados para o uso de medicações e equipamentos. O projeto, portanto, impulsiona a criação de protocolos e treinamentos.

Visão ampliada: além do diagnóstico

Malieri, que convive com diabetes há 40 anos, enfatiza a importância de olhar para o contexto e a integralidade da pessoa, para além do diagnóstico. "Quando falamos sobre uma condição crônica, também precisamos olhar para a complexidade da pessoa que existe para além do diagnóstico. Existem uma mulher, um homem, uma criança, uma família, uma profissão, sonhos, projetos, afetos e uma vida inteira que não pode ser reduzida à própria condição de saúde."

As dificuldades enfrentadas por pessoas com diabetes tipo 1, muitas vezes, não se restringem ao acesso a medicamentos, mas à forma como a sociedade lida com a condição no cotidiano e nega direitos. O PL é um avanço crucial para assegurar direitos básicos, sem a obrigatoriedade de avaliações biopsicossociais complexas, bastando o laudo médico.

"Isso demonstra uma tentativa de construir um equilíbrio entre reconhecimento das necessidades reais do diabetes tipo 1, inclusão social e responsabilidade jurídica. Se sancionado, o projeto não resolve tudo, mas representa um passo concreto para que essas necessidades deixam de depender de negociação individual e passem a ter respaldo legal claro", conclui Malieri.

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