PODER DE FOGO DA JUSTIÇA
Operação "Mens Occulta" desbarata organização criminosa que usava beneficiários de programas sociais para lavagem de dinheiro e tráfico internacional de cocaína
Família investigada movimentou R$ 70 milhões sem comprovação de origem. Beneficiários de programas como Bolsa Família e Auxílio Emergencial foram identificados em transações suspeitas.
A operação "Mens Occulta", deflagrada pela Polícia Federal (PF), desvendou um esquema complexo de tráfico internacional de cocaína e lavagem de dinheiro liderado por Mario Sergio Nunes, conhecido como "Serjão do PCC". As investigações revelaram que a organização criminosa utilizava beneficiários de programas sociais do governo federal, como o Bolsa Família e o Auxílio Emergencial, em suas movimentações financeiras. A identificação de pelo menos 56 desses indivíduos em transações suspeitas chamou a atenção dos investigadores durante a apuração.
Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) e registros de transferências bancárias detalham como os beneficiários receberam recursos que, segundo a PF, foram usados em operações financeiras ligadas ao grupo investigado. Essa estratégia permitiu à organização, que mantinha uma estrutura semelhante à de uma empresa para suas atividades ilícitas, movimentar aproximadamente R$ 70 milhões nos últimos cinco anos sem comprovação de origem lícita.
Entre os investigados está Rhanniery Nunes Graciano, ex-genro de Mario Sergio. Segundo a PF, ele recebeu repasses do Auxílio Emergencial durante a pandemia, o que o coloca no centro das investigações por seu papel em ocultar bens e patrimônio. A força policial ressalta, contudo, que nem todos os beneficiários identificados compõem o núcleo da organização criminosa. Alguns possuem ligações diretas com familiares e membros centrais do esquema, enquanto outros aparecem como remetentes, destinatários ou figuras relacionadas a transações financeiras consideradas suspeitas.
A estratégia da organização criminosa incluía o uso de laranjas para ocultar patrimônio e a aquisição de bens de alto valor, incompatíveis com a renda declarada. Veículos importados, embarcações, motos aquáticas, propriedades rurais, um motorhome avaliado em R$ 1,2 milhão e até um cavalo de competição foram apreendidos. A PF aponta que a família Nunes mantinha um padrão de vida elevado, adquirido com os lucros do tráfico, evidenciado também pela aquisição de ranchos e outros imóveis.
A estrutura da organização era sofisticada: utilizavam caminhões, carretas, transportadoras e empresas de fachada para sustentar a operação e ocultar drogas em compartimentos falsos. Uma rota principal ligava Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia a Minas Gerais, com Uberlândia sendo o principal centro de recebimento, armazenamento e distribuição de cocaína. A esposa de Mario Sergio, Maria Lourdetis Ferreira Silva Nunes, e as filhas Bruna e Brenda Silva Nunes, são apontadas como participantes ativas na movimentação de recursos e ocultação de patrimônio. Apesar de investigada, Maria Lourdetis não foi alvo de mandado de prisão.
As defesas dos envolvidos manifestaram confiança na Justiça. O advogado da família Nunes, José Carlos de Oliveira Campos, afirmou que a família está à disposição das autoridades e aguarda acesso completo aos autos, ressaltando preocupação com a falta de acesso ao processo sigiloso. Sérgio Luiz da Silva, advogado de Rhanniery, declarou que acompanha os desdobramentos e reforçou o princípio da presunção de inocência.
A investigação evidencia como a atuação criminosa pode infiltrar-se em programas sociais, explorando a vulnerabilidade de cidadãos e a fragilidade de sistemas de controle. A PF esclarece que a identificação de beneficiários em transações suspeitas é crucial para apontar incompatibilidades entre renda declarada e movimentações financeiras, uma prática comum na lavagem de dinheiro. A operação "Mens Occulta" demonstra a persistência do crime organizado em buscar brechas para suas atividades ilícitas, impactando a dignidade e a segurança da sociedade.
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