ALERTA CLIMÁTICO

Novo El Niño ameaça Brasil após tragédias recentes, testando preparo para eventos extremos

Chuvas intensas causando inundações em áreas urbanas.
Condições climáticas extremas como as vistas no Rio Grande do Sul em 2024 evidenciam a necessidade de preparo para novos eventos.

Fenômeno no Pacífico pode intensificar chuvas no Sul e secas no Norte/Nordeste, mas incertezas sobre intensidade e falta de adaptação geram preocupação. Comunidades vulneráveis clamam por investimentos.

Um novo episódio de El Niño já apresenta sinais no Oceano Pacífico, acendendo o alerta para potenciais impactos no Brasil. A formação do fenômeno, que pode trazer chuvas mais intensas para o Sul e agravar secas no Norte e Nordeste, ocorre em um momento de questionamentos sobre o preparo do país para lidar com eventos climáticos extremos. Satélites e radares monitoram o deslocamento de uma massa de água mais quente em direção à costa da América do Sul, indicando um padrão conhecido por cientistas.

A principal incerteza reside na intensidade que o El Niño pode atingir. Especialistas, incluindo Tércio Ambrizzi, professor de ciências atmosféricas na Universidade de São Paulo (USP), indicam uma tendência de intensidade moderada a forte, descartando o termo 'super El Niño'. A definição desse nível de impacto é crucial para determinar como os efeitos serão sentidos em território brasileiro. O fenômeno é identificado quando a temperatura da superfície do Oceano Pacífico equatorial excede em cerca de 0,5 °C a normal por, no mínimo, três meses; desde fevereiro, essa elevação tem sido registrada.

José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), prevê que os primeiros sinais do El Niño no Brasil, com aumento de chuvas, devem surgir no Sul durante a primavera. Dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM) apontam 90% de probabilidade de ocorrência do fenômeno este ano, com potencial para agravar secas, chuvas intensas e ondas de calor, conforme alertado pela entidade ligada às Nações Unidas em 02 de maio. As condições do Pacífico já se aproximavam dos níveis típicos de El Niño em meados de maio, com temperaturas abaixo da superfície significativamente elevadas.

A possibilidade de um El Niño de forte intensidade tem gerado debates em diversas esferas. No Congresso Nacional, as discussões versam sobre os potenciais prejuízos à população, à economia e ao agronegócio. A próxima safra de grãos, estimada em 356 milhões de toneladas, pode ser afetada. A Defesa Civil da União, em articulação com estados, municípios e instituições como Cemaden e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), afirma que o foco está no monitoramento constante e na preparação antecipada para alertas e medidas emergenciais. A expectativa é de agravamento da seca em regiões como o Norte e Nordeste, favorecendo queimadas e impactando a agricultura, enquanto o Sul pode registrar aumento de chuvas.

A Agência de Defesa Civil do Estado de Santa Catarina decretou estado de alerta climático até novembro. Contudo, dados divulgados pela Assembleia Legislativa do estado, via Sistema Integrado de Planejamento e Gestão Fiscal (Sigef-SC), indicam uma paralisação nos investimentos em prevenção de desastres. Em 2025, apenas 15,4% dos recursos previstos para a Secretaria de Proteção e Defesa Civil foram executados, com um percentual ainda menor (0,66%) destinado à construção e reforma de barragens. Tais fatos ocorrem em um ano eleitoral, levantando preocupações sobre a destinação de recursos públicos.

Cada episódio de El Niño possui características únicas. O mais recente, entre 2023 e 2024, foi um dos mais intensos já registrados e contribuiu para recordes de temperatura global. A memória da destruição causada pelas chuvas extremas no Rio Grande do Sul em 2024, uma combinação de eventos climáticos e um El Niño intenso, permanece viva. Especialistas como Marengo ressaltam que, mesmo sem um El Niño forte, a atmosfera mais quente devido ao aquecimento global já exige mudanças sistemáticas.

Em comunidades mais vulneráveis, a percepção é de ausência de investimentos públicos em adaptação e enfrentamento de eventos extremos. Thaynah Gutierrez, da Rede por Adaptação Antirracista, aponta que periferias, como as de Porto Alegre severamente atingidas em 2024, carecem de preparo. Para gestores de risco, a preparação não deveria depender da confirmação de fenômenos climáticos, mas ser uma agenda contínua. Victor Marchezini, sociólogo no Cemaden, defende a construção de capacidade permanente de adaptação e resiliência em cidades, infraestrutura e sistemas produtivos, em vez de reagir a alertas pontuais.

A comunicação de risco enfrenta desafios com a proliferação de informações desencontradas nas redes sociais. Gutierrez destaca que, embora haja alarmismo, a maioria da população não acessa esse conteúdo diretamente. A cobrança por investimentos e a prestação de contas devem ocorrer em todas as esferas de governo. O planejamento antecipado de licitações e contratos para resposta a desastres, como sugere Marchezini, reduziria a necessidade de medidas emergenciais e gastos extraordinários.

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