DESIGUALDADE NA SAÚDE
Mulheres negras no Brasil enfrentam quase o dobro do risco de morte materna, revela estudo
Pesquisa nacional de 2000 a 2020 aponta que raça e cor influenciam dramaticamente as chances de sobreviver à gestação, evidenciando falhas estruturais no acesso e na qualidade do atendimento.
Mulheres negras no Brasil enfrentam um risco alarmante e persistente de morte materna, com chances quase dobradas em comparação com mulheres brancas. Uma nova análise de dados nacionais, coletados entre 2000 e 2020, revelou que a cor da pele continua sendo um fator determinante na mortalidade durante a gestação e até 42 dias após o parto. Dessas mortes, quase 60% ocorreram entre mulheres pretas e pardas, evidenciando profundas desigualdades no sistema de saúde.
Publicado em janeiro no International Journal of Environmental Research and Public Health, o estudo, liderado por Giovana Aparecida Gonçalves Vidotti, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), buscou verificar se a disparidade racial no risco de morte materna estava diminuindo. Os resultados indicam o contrário: as desigualdades se mantêm firmes. ‘Essas diferenças persistem, mostrando que não se trata apenas de um problema assistencial, mas também estrutural’, explicou Vidotti. A mortalidade materna engloba os óbitos de mulheres em decorrência da gravidez ou até 42 dias depois do término, quando diretamente ligados ao período gestacional.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu a meta de reduzir a mortalidade materna para até 70 mortes por 100 mil nascidos vivos até 2030. No Brasil, o índice foi de 57 mortes por 100 mil nascidos vivos em 2024. Contudo, o estudo aponta que as principais causas de morte materna no país, nas duas décadas analisadas, foram condições obstétricas mal definidas (29,9%), hipertensão na gravidez (21,3%) e complicações no parto e no pós-parto (15,2% e 13,2%, respectivamente). Abortos representaram 7,8% dos óbitos. É preocupante que quase metade dessas mortes (46,9%) tenha ocorrido no pós-parto imediato.
A ginecologista e obstetra Ana Paula Beck, do Einstein Hospital Israelita, ressaltou que a mortalidade materna é um termômetro da qualidade da assistência à saúde e das condições sociais de um país. ‘No Brasil, apesar de avanços, os níveis permanecem elevados e desiguais’, alertou. O estudo também destacou que mulheres indígenas apresentam um risco de mortalidade materna mais de duas vezes superior ao das mulheres brancas. Essas disparidades estão intrinsecamente ligadas ao racismo estrutural.
O racismo estrutural se manifesta desde o acesso aos serviços até a qualidade do atendimento, resultando em queixas muitas vezes menos valorizadas e enfrentando estereótipos inadequados. Vidotti complementou que fatores como menor acesso a serviços de saúde de qualidade, início tardio do pré-natal e o próprio racismo estrutural e institucional comprometem o acolhimento e o manejo clínico. Falhas no acesso ao pré-natal, dificuldade na identificação precoce de riscos e problemas de encaminhamento para serviços mais complexos são comuns.
Apesar da alta cobertura de pré-natal no Sistema Único de Saúde (SUS), a qualidade do acompanhamento ainda é um desafio. Idealmente, o pré-natal deveria incluir consultas mensais até a 28ª semana, quinzenais até a 36ª e semanais até o parto, totalizando cerca de 15 a 16 consultas. No entanto, o protocolo do SUS prevê aproximadamente oito consultas. A baixa escolaridade e a vulnerabilidade socioeconômica, especialmente em regiões como o Norte e Nordeste, agravam o cenário.
Diante desse quadro, Vidotti informou que os próximos passos da pesquisa visam aprofundar a análise dos dados para subsidiar a formulação de políticas públicas mais eficazes no combate à mortalidade materna racializada.
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