SAÚDE PÚBLICA INDÍGENA

MPF apura contaminação por agrotóxicos em Terra Indígena no MT

Entrada da Terra Indígena Tirecatinga com placa de identificação em Sapezal.
Entrada da Terra Indígena Tirecatinga, em Sapezal (MT), território demarcado em 1983 — Foto: Fellipe Abreu/Getty Images

Estudo da UFMT detectou substâncias proibidas em 88% das amostras coletadas na Terra Indígena Tirecatinga; lideranças relatam problemas de saúde na comunidade.

O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um inquérito civil para investigar a contaminação por defensivos agrícolas na Terra Indígena Tirecatinga, situada em Sapezal, MT. A decisão, formalizada em 11 de julho de 2026 pelo procurador da República Gabriel Martins, busca salvaguardar a saúde da comunidade Nambiquara, que habita o território, após um estudo técnico apontar riscos severos à integridade física dos moradores.

A medida foi impulsionada por um levantamento acadêmico da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que revelou a presença de resíduos tóxicos em 88% das plantas medicinais cultivadas pelo povo Nambiquara. Entre as substâncias encontradas, constam químicos proibidos no Brasil e na União Europeia, como o carbofurano, além de atrazina, clorpirifós, tiametoxam e acetamiprido. A investigação é um passo inicial para determinar a responsabilidade pela exposição da população aos poluentes.

O impacto da contaminação vai além dos solos, alcançando a dignidade humana. Lideranças indígenas relataram o surgimento recorrente de enfermidades respiratórias, cefaleias persistentes e casos de aborto espontâneo, levantando um alerta urgente sobre as condições de vida no local. Embora o nexo causal direto entre as substâncias e os problemas de saúde ainda demande comprovação clínica adicional, a vulnerabilidade do grupo é evidente.

O cenário é agravado pela localização da Terra Indígena Tirecatinga, inserida em um dos municípios que mais utiliza defensivos agrícolas no estado de Mato Grosso. Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a área abriga 244 pessoas, cuja soberania alimentar e bem-estar dependem diretamente da qualidade dos recursos naturais da região.

Em nota oficial, o Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea-MT) declarou que não recebeu notificações formais do MPF até o momento, optando por não se manifestar sobre os detalhes da investigação. O inquérito civil segue em fase de apuração, com o monitoramento contínuo da presença de químicos em produtos vegetais e a averiguação de eventuais pulverizações irregulares nas proximidades da terra demarcada.

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