LEGADO MUSICAL GIGANTE
Guto Graça Mello: o maestro que moldou a música brasileira se despede
Produtor e compositor, de 78 anos, faleceu nesta terça-feira, 05 de maio de 2026, no Rio de Janeiro, vítima de parada cardiorrespiratória. Com mais de cinco décadas de carreira, Guto transformou artistas e criou trilhas sonoras antológicas.
O Brasil lamenta a perda de um de seus mais influentes arquitetos musicais. Guto Graça Mello, cujo nome completo era Augusto César Graça Mello, faleceu nesta terça-feira, 05 de maio de 2026, aos 78 anos, vítima de uma parada cardiorrespiratória em um hospital no Rio de Janeiro (RJ). Sua partida deixa um vazio na indústria fonográfica, mas seu legado como compositor e, principalmente, como hábil produtor musical, que moldou a carreira de inúmeros artistas e criou trilhas sonoras inesquecíveis, permanece como um pilar da cultura brasileira.
Ao longo de sua trajetória, Guto Graça Mello destacou-se pela notável diplomacia, habilidade que o permitia transitar com maestria entre a visão artística dos cantores e as rigorosas exigências comerciais das gravadoras. Seu faro apurado para o sucesso, aliado a um gosto musical refinado, o tornou um mediador essencial no universo da música.
Um exemplo marcante dessa capacidade pode ser visto em sua atuação junto a Marcos Maynard, o exigente executivo que liderava a PolyGram em 1993. Guto intermediou com sucesso as gravações dos álbuns das cantoras Maria Bethânia e Cássia Eller (1962 – 2001). Para Bethânia, em 1993, produziu “As canções que você para mim”, um tributo a Roberto Carlos que a trouxe de volta às paradas com a força dos anos 1970, conciliando as aspirações da artista com a visão comercial.
Com Cássia Eller, em 1994, o desafio foi suavizar o tom para torná-la mais pop e radiofônica. Mesmo diante da resistência da cantora a faixas como “Partners” (Paulo Ricardo, Luiz Schiavon e Paulo Pagni, 1988), imposta por Maynard, Guto Graça Mello orquestrou um disco bem-sucedido que emplacou sucessos como “E.C.T.” (Nando Reis, Marisa Monte e Carlinhos Brown, 1994) e “Malandragem” (Roberto Frejat e Cazuza, 1994), demonstrando sua rara capacidade de harmonizar mundos aparentemente opostos.
A produção desses dois álbuns não apenas impulsionou a carreira dos artistas, mas também reabilitou o nome de Guto na indústria fonográfica. Ele havia se afastado do mercado na segunda metade da década de 1980, autoexilando-se nos Estados Unidos devido ao envolvimento com drogas, o que, à época, parecia sinalizar o fim de uma carreira promissora.
Contudo, sua brilhante jornada como produtor teve início bem antes, na primeira metade dos anos 1970, na TV Globo. A partir de 1973, Guto Graça Mello exerceu um papel decisivo na criação de trilhas sonoras de novelas, tornando-se uma referência no gênero.
A trilha original da novela “Gabriela”, de 1975, por exemplo, tornou-se antológica ao apresentar músicas inéditas de gigantes como Dorival Caymmi (1914 – 2008), Alceu Valença, Sueli Costa (1943 – 1983) e Walter Queiroz. Entre 1975 e 1985, Guto marcou época tanto na produção de trilhas memoráveis quanto como um dos diretores da Som Livre.
Na Som Livre, integrada à TV Globo, ele foi fundamental para a guinada pop de Rita Lee (1947 – 2023) a partir de 1979, em parceria com Roberto de Carvalho. O sucesso foi estrondoso, com Rita liderando as paradas brasileiras de 1979 a 1982. Em 1986, sob a batuta do então diretor João Araújo (1935 – 2013), Guto produziu o primeiro álbum de Xuxa, transformando a apresentadora em uma das maiores vendedoras de discos da história fonográfica brasileira.
A extensão e excelência do trabalho de Guto Graça Mello são inquestionáveis. Sua atuação como produtor e/ou diretor musical abarcou festivais, especiais infantis como o célebre “Plunct plact zuuum” (1983), trilhas sonoras para filmes e para musicais de teatro.
Além de seu trabalho nos bastidores, Guto Graça Mello também foi um notável compositor. Suas canções foram gravadas por grandes nomes como Fafá de Belém (“Gosto do prazer”, 1983), Fernanda Abreu (“Babilônia rock”, 1995), Maria Bethânia (“Vinho”, parceria com Naila Skorpio, 1983), Nana Caymmi (1941 – 2025) – que interpretou “A cara do espelho” em 1977 – e Nara Leão (1942 – 1989), com “Cabra macho”, parceria com Mariozinho Rocha, em 1967. Com Rocha, também assinou “Marrom Glacê”, tema-título da novela de 1979.
Formado em violão e arranjo pelo Berklee College of Music, Guto também é autor do tema de abertura do programa “Fantástico” (estreado em 1973). Sua trajetória, que começou nos anos 1960 como integrante do Grupo Manifesto e floresceu nos bastidores, deixou uma contribuição imensurável à música brasileira. Sua atuação conciliadora conquistou até mesmo astros exigentes como João Gilberto (1931 – 2019) e Roberto Carlos.
Em última análise, Guto Graça Mello atuou como um verdadeiro "meio-campo" da música, armando as jogadas perfeitas para que cantores e cantoras fizessem "golaços" em forma de discos memoráveis, enriquecendo o repertório cultural do país.
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