JUDICIALIZAÇÃO EM ALTA

Execução de dívidas privadas bate recorde com 1,2 milhão de ações no Brasil

Gráfico ou imagem ilustrativa sobre endividamento das famílias brasileiras
Famílias brasileiras enfrentam níveis recordes de endividamento que levam a disputas judiciais — Foto: Equipe de Arte/g1

O volume de processos de cobrança atingiu o maior patamar da série histórica em 2025. Especialistas apontam excesso de crédito e falta de renegociação como causas.

O Brasil atingiu um marco preocupante na esfera jurídica e financeira: o número de processos de execução de dívidas privadas alcançou o maior nível da série histórica em 2025. Com 1.239.537 novas ações registradas, o volume reflete um crescimento de quase 60% em relação aos dados de 2020, quando foram contabilizados 772.645 casos. A movimentação, confirmada pelo Painel de Estatísticas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), revela o esgotamento das famílias e empresas diante de obrigações financeiras que já não encontram solução fora dos tribunais.

O cenário é agravado pelo recorde de endividamento das famílias, que em março de 2026 atingiu 80,4% do total, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Os processos judiciais, que incluem execuções de títulos extrajudiciais como contratos de empréstimo e financiamentos de veículos, são frequentemente o último recurso para credores tentarem reaver valores.

Para Fernando Corrêa, da Associação Brasileira de Jurimetria (ABJ), a via judicial mostra a fragilidade do sistema de cobrança atual. "A execução é inefetiva, pois é difícil localizar bens dos devedores. Não é uma estratégia de sucesso, mas o último recurso disponível quando outras tentativas fracassam", explica.

A ausência de uma cultura consolidada de renegociação extrajudicial no Brasil é apontada pela juíza Káren Rick Danilevicz Bertoncello, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), como um gargalo estrutural. A magistrada alerta que acordos pontuais, como os feirões bancários, frequentemente ignoram a capacidade global de pagamento do consumidor, o que pode levar ao superendividamento contínuo.

O TJRS atua com um projeto focado na gestão de superendividamento, buscando mediar acordos que respeitem o orçamento mínimo para subsistência. A iniciativa já soma mais de 31 mil processos, com especial atenção ao público idoso. Contudo, o desafio é complexo: além da facilidade de acesso ao crédito, a ascensão das apostas online, conhecidas como bets, aparece nos relatos de audiências como um motor que empurra indivíduos a contraírem novos empréstimos para sustentar o vício em jogos, agravando a espiral de dívidas.

Embora programas federais tenham tentado mitigar a situação, especialistas reforçam que o problema exige uma análise rigorosa da concessão de crédito pelos bancos. "Há um dever expresso na lei de que as instituições financeiras avaliem a real condição do tomador antes de liberar recursos. Quando isso falha, o custo social é a judicialização e a perda da dignidade das famílias", conclui a juíza.

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