CIÊNCIA E SAÚDE
Estudo descobre método capaz de prever câncer de pulmão com anos de antecedência
Pesquisa identifica 14 proteínas em exame de sangue que sinalizam risco da doença. Método promete intervenção precoce e prevenção em indivíduos sem histórico de tabagismo.
Uma pesquisa publicada nesta quinta-feira, 06 de junho de 2026, na revista Cell, revela um promissor método para prever o risco de câncer de pulmão com anos de antecedência. A decisão de divulgar os resultados agora visa alertar a comunidade científica e a sociedade sobre o potencial da descoberta. O estudo, que contou com o apoio de instituições britânicas, identificou um conjunto de 14 proteínas no plasma sanguíneo capazes de sinalizar um ambiente pulmonar propício ao desenvolvimento da doença, podendo antecipar o diagnóstico em até cinco anos. A importância reside na possibilidade de intervenção precoce, especialmente para indivíduos que não se encaixam nos perfis atuais de rastreamento.
O trabalho surge em um cenário de crescente preocupação com fatores ambientais associados ao câncer de pulmão. Embora o tabagismo permaneça como o principal fator de risco, a exposição à poluição do ar, à fumaça de cigarro e à queima de combustíveis fósseis também contribui para alterações celulares ligadas ao surgimento de tumores. Os programas de rastreamento atuais geralmente se concentram em pessoas com mais de 50 anos e histórico de tabagismo, um modelo que pode negligenciar indivíduos expostos a agentes ambientais nocivos sem nunca terem fumado.
Cientistas analisaram amostras de sangue de mais de 48 mil participantes do UK Biobank, utilizando aprendizado de máquina para identificar padrões biológicos associados à inflamação pulmonar. Essa análise revelou uma assinatura proteica composta por 14 marcadores com potencial de antecipar o risco da doença. A descoberta foi posteriormente validada em oito bases de dados internacionais independentes, confirmando que os níveis dessas proteínas permaneceram elevados em pessoas diagnosticadas com câncer de pulmão anos depois, incluindo aquelas sem histórico de tabagismo. Os resultados sugerem que o sinal detectado é gerado por alterações inflamatórias preexistentes, não pelo tumor já formado.
Tej Pandya, doutorando da University College London (UCL) e pesquisador visitante do Instituto Francis Crick, destacou o poder da combinação entre análises computacionais e experimentos laboratoriais. "Utilizamos o aprendizado de máquina em dados de plasma de mais de 48 mil pessoas para identificar a assinatura de 14 proteínas. Foi impressionante validá-la em oito conjuntos de dados diferentes com mais de 80 colaboradores em quatro continentes", afirmou. Segundo Pandya, a assinatura está ligada a um ambiente inflamatório alterado nos pulmões antes do desenvolvimento da doença.
A pesquisa também associou esse padrão inflamatório a outras doenças respiratórias graves, como fibrose pulmonar idiopática e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Esse achado indica a possibilidade de mecanismos biológicos comuns entre patologias pulmonares relacionadas ao envelhecimento. Adicionalmente, o estudo observou que partículas poluentes podem estimular a liberação de interleucina-1 beta, uma molécula inflamatória, pelo sistema imunológico. Esse processo poderia ativar células dormentes com mutações, favorecendo a expansão de células precursoras de tumores, conhecidas como KAC. Em testes com camundongos, o bloqueio dessa molécula inflamatória reduziu essas células alteradas e retardou o desenvolvimento tumoral.
Hayley Brown, gerente de informações de pesquisa da Cancer Research UK, ressaltou a relevância da identificação precoce. “Ao revelar os primeiros sinais de alerta do câncer, esta pesquisa nos aproxima da possibilidade de intervir mais cedo e, potencialmente, impedir a doença antes que ela comece”, declarou. Embora ainda em fase de validação, a pesquisa abre caminho para o desenvolvimento de estratégias preventivas direcionadas a indivíduos em maior risco, antes mesmo do surgimento de sintomas clínicos.
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