CRISE NO CAMPO
Escassez de fertilizantes e El Niño ameaçam preço dos alimentos no Brasil
Especialistas alertam que a alta dos custos e instabilidades globais podem reduzir a produtividade de itens essenciais como arroz, café e trigo no próximo ano.
A alta nos preços dos fertilizantes e as dificuldades logísticas globais forçam agricultores a reduzir a adubação nesta safra, o que pode comprometer a oferta de alimentos fundamentais como arroz, laranja, café e trigo. A decisão de reduzir o uso de insumos, adotada por produtores diante do encarecimento dos produtos e da incerteza no fornecimento, importa diretamente na cesta básica do brasileiro devido ao risco de queda na produtividade das lavouras.
O cenário é agravado pela dependência externa, já que o Brasil importa 85% dos fertilizantes que consome. O Oriente Médio, quarto maior fornecedor do país, enfrenta instabilidades no fluxo de transporte através do Estreito de Ormuz, rota crucial por onde passa um terço do comércio marítimo do insumo. Conflitos envolvendo Estados Unidos e Irã têm provocado o fechamento intermitente dessa passagem, encarecendo produtos como ureia, amônia e enxofre.
De acordo com Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro, a redução na adubação impacta diretamente a quantidade e a qualidade dos itens disponíveis no mercado. O problema ganha contornos de preocupação maior pela coincidência com o fenômeno El Niño, que causa o aquecimento das águas do Oceano Pacífico e altera padrões climáticos, aumentando o risco de secas ou chuvas irregulares em regiões produtoras.
A situação é mais crítica para agricultores com menor acesso ao crédito. Conforme aponta Bruno Fonseca, analista do Rabobank, muitos produtores não terão condições de manter os níveis ideais de nutrição do solo. Por outro lado, produtores de maior porte e com melhor planejamento financeiro, citados por Wharlhey Nunes, da Consultoria Agro do Itaú BBA, devem absorver melhor o impacto, embora a pressão sobre culturas de menor rentabilidade, como o trigo e o café, permaneça como um risco real para a economia agrícola.
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