MISÉRIA E EXCESSO
Desperdício de alimentos no Brasil: problema em todas as etapas impacta quem tem fome
Quase 7 milhões de brasileiros passam fome enquanto toneladas de comida são perdidas do campo à mesa, agravando a insegurança alimentar e gerando perdas ambientais e financeiras.
Enquanto quase 7 milhões de brasileiros enfrentam a fome, o país lida com um paradoxo alarmante: a vasta perda de alimentos em todas as etapas da cadeia produtiva, do campo à geladeira. Essa discrepância, decidida por uma complexa rede de fatores que vão da falta de planejamento agrícola a hábitos culturais, não só agrava a insegurança alimentar, mas também gera expressivos prejuízos ambientais e financeiros. A questão importa porque a redução desse desperdício poderia significar mais acesso à comida para populações vulneráveis e um uso mais eficiente dos recursos.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que 18,9 milhões de famílias ainda convivem com alguma forma de insegurança alimentar. Daniela Teston, diretora de relações corporativas do WWF-Brasil, destaca que o custo do desperdício já está embutido no preço dos alimentos. "Existe dentro do varejo um cálculo de perda já especificado no valor dos produtos. Então a gente paga por essa perda", explica. Ela ressalta que, mesmo para quem saiu da linha da pobreza, o acesso à nutrição adequada diariamente ainda é um desafio.
Além do impacto social direto na dignidade humana, o descarte de comida também corrói o meio ambiente. A decomposição de alimentos gera metano, um potente gás de efeito estufa, e chorume, que contamina o lençol freático. O Banco Mundial estima que, globalmente, a perda anual de alimentos atinge US$ 1 trilhão, evidenciando um ralo financeiro e ecológico de proporções gigantescas.
Perdas no campo: um gargalo persistente
No campo, a perda de alimentos é um problema complexo e multifacetado, segundo Gustavo Porpino, pesquisador da Embrapa Alimentos e Territórios. Ele aponta a falta de acesso dos agricultores a mercados como um dos principais vilões, especialmente para produtos perecíveis como alface e morango. "No dia que o alimento está pronto para ser colhido, o produtor já tem que saber para onde ele vai comercializar, se não vai se perder muito rapidamente", afirma.
Mudanças climáticas, com secas e chuvas intensas em períodos cruciais para as colheitas, pragas e doenças que dizimam plantações, e a escassez de tecnologia para conservação e colheita eficiente também contribuem significativamente para o cenário. A exigência estética do mercado, que descarta produtos fora do padrão, e os picos de produção, que geram excesso de oferta, agravam a situação. A logística inadequada, como o transporte de hortaliças sem refrigeração e o uso de embalagens impróprias, completa o quadro de perdas, muitas das quais poderiam ser mitigadas com investimentos e técnicas de produção adequadas.
O excesso nas prateleiras e as armadilhas do varejo
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) estima que o varejo e restaurantes respondam por uma parcela considerável do desperdício. Porpino explica que a exigência estética, aliada a práticas como a venda consignada – onde o varejista só paga ao agricultor se o produto for vendido –, penaliza o produtor. "As outras 200 se estragaram na loja. Isso não vai significar prejuízo para o varejista, mas para o produtor", detalha. Iniciativas de doação de alimentos excedentes para instituições de caridade buscam amenizar esse problema, coletando itens em boas condições para redistribuição.
O que leva a comida a ir para o lixo em casa?
O maior volume de desperdício ocorre, surpreendentemente, nos lares brasileiros. O Pnuma aponta que, em 2022, foram descartadas 631 milhões de toneladas. Parte disso se deve à chegada de alimentos às prateleiras já com qualidade comprometida, devido ao longo transporte ou por serem de segunda linha, como relata Porpino, que muitas vezes são a única opção para consumidores de menor poder aquisitivo. "Essas frutas e verduras, às vezes, já têm um tempo de vida muito curto", pontua.
Maria Siqueira, do Pacto Contra a Fome, adiciona fatores culturais ao debate: o gosto brasileiro pela fartura, que leva a compras sem planejamento do consumo real, e o histórico hábito de estoque como forma de prevenção contra inflação. "No fim das contas, você não precisava daquela comida. Ela foi uma comida de estoque e foi esquecida no fundo da geladeira, porque a demanda real não existia", conclui.
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