DEMOCRACIA SOB ATAQUE

Crime organizado se infiltra em eleições, trocando votos por dinheiro e drogas

Celular apreendido de traficante com mensagens sobre compra de votos.
Imagens de celular detalharam a negociação de votos por "moeda branca" em Santa Catarina.

Investigadores alertam que grupos criminosos como PCC e Comando Vermelho financiam candidatos e intimidam eleitores, comprometendo a liberdade de escolha. Casos em Rio de Janeiro e Santa Catarina expõem esquemas com cocaína e coação.

Investigadores e autoridades alertam para uma nova e perigosa faceta da criminalidade no Brasil: a infiltração direta do crime organizado no processo eleitoral. O que antes se restringia a práticas isoladas de corrupção, agora ameaça a liberdade de escolha do cidadão e a segurança do próprio pleito. Grupos como o PCC e o Comando Vermelho, além de milícias, estariam financiando candidatos com recursos oriundos do tráfico e de atividades ilícitas. Essa tática complexa, que envolve desde a troca de votos por drogas até a coação de eleitores, compromete a integridade democrática, como revela uma série de casos em diferentes regiões do país.

Nathalia Mariel, procuradora da Procuradoria-Geral Eleitoral, destaca a gravidade do fenômeno. "Esse fenômeno já acontecia e agora está saltando aos olhos. Ele afeta não só para fins de corrupção, a compra de votos em si, mas na escolha de candidatos, na possibilidade de as pessoas exercerem o seu direito de votar efetivamente de maneira livre", explica.

A compra de votos, antes uma prática mais restrita, agora se manifesta de formas alarmantes. Em Timbé do Sul, no interior de Santa Catarina, uma investigação sobre tráfico de drogas desvendou um esquema inédito: cocaína era utilizada como moeda de troca por votos. Um eleitor confessou ter enviado a foto do seu título de eleitor em troca da droga, conhecida como "moeda branca". O delegado Lucas Fernandes da Rosa, após 15 anos de carreira, relatou que foi a primeira vez que presenciou uma negociação de voto envolvendo substâncias entorpecentes. O candidato beneficiado pelo esquema, Sadi Vieira, foi condenado por corrupção eleitoral em 2024, pouco antes do fim de seu mandato como vereador e presidente da Câmara Municipal.

A inteligência policial apreendeu o celular de um traficante, Claudiomir da Silva, onde foram detalhadas as transações. Fotos de títulos de eleitor eram trocadas por doses de cocaína, em um claro desrespeito à autonomia do eleitor e à dignidade humana. A condenação de Sadi Vieira, no entanto, ainda não é definitiva, pois aguarda julgamento de recurso.

No Rio de Janeiro, a situação exige medidas de segurança drásticas. Em territórios dominados pelo crime organizado, eleitores que vendem seus votos tornam-se reféns de esquemas que controlam o acesso às urnas. Para coibir a intimidação e garantir a liberdade de voto, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) alterou o endereço de 53 locais de votação nas eleições de 2024. Para 2026, a previsão é que pelo menos 20 zonas eleitorais precisem ter seus locais de votação modificados para evitar a influência criminosa. O desembargador Claudio de Mello Tavares, presidente do TRE-RJ, ressalta que, embora o sistema eletrônico garanta o sigilo do voto, o crime busca constranger fisicamente os eleitores. "Já tivemos casos em que o traficante ou o candidato apoiado pela milícia estava adentrando no local de votação, ameaçando o eleitor", afirma.

Casos emblemáticos no Rio de Janeiro, como os do policial militar Michel Maia e do então candidato Dinho Resenha, em Belford Roxo, ilustram a interligação entre agentes públicos, candidatos e o "poder paralelo". Michel Maia, que atuava como cabo eleitoral de Dinho Resenha, foi flagrado em escutas telefônicas ameaçando eleitores e relatando pagamentos de R$ 50 a R$ 100 por voto. A defesa de Michel Maia alega que a condenação por corrupção eleitoral ainda não é definitiva, pois o processo está em fase de recurso. A defesa de Dinho Resenha contesta as acusações, alegando falta de provas e que a inocência será comprovada após o esgotamento de todos os recursos legais.

A complexidade de investigar esses crimes reside na sua natureza "hermética", ocorrendo em círculos fechados onde o medo impede testemunhos. "É um círculo muito próximo. Você imagina como é que essas pessoas vão eventualmente testemunhar com segurança?", questiona a procuradora Nathalia Mariel. Além das consequências jurídicas, a corrupção eleitoral perpetua um ciclo de degradação dos serviços públicos, impactando diretamente a qualidade de vida da população, com falta de remédios, professores e merenda escolar. A conscientização do eleitor é, portanto, um pilar fundamental para que o voto se torne um instrumento de real melhoria social. Um eleitor condenado em Santa Catarina expressou o arrependimento: "Arrependimento até hoje é grande. No fim eu peguei, me incomodei e tô me incomodando por causa disso."

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