INOVAÇÃO CLIMÁTICA GLOBAL
Cientistas estudam uso de nuvens artificiais para amenizar efeitos do El Niño
Pesquisa propõe clareamento de nuvens para reduzir impactos econômicos e climáticos do fenômeno. Medida visa atuar apenas na fase inicial de formação.
A possibilidade de intervir no clima global para evitar desastres naturais ganhou um novo capítulo. Um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos, em estudo publicado na revista Science Advances, apresentou uma estratégia que propõe o clareamento de nuvens marinhas para enfraquecer a força do El Niño, fenômeno que historicamente causa perdas econômicas bilionárias e altera padrões de vida ao redor do mundo.
A decisão de investigar essa técnica, divulgada para a comunidade acadêmica, baseia-se em um evento climático observado entre 2019 e 2020. Na ocasião, a fumaça dos grandes incêndios florestais conhecidos como "Black Summer", na Austrália, acabou alterando o comportamento das nuvens sobre o Oceano Pacífico, o que, segundo cientistas, contribuiu para resfriar as águas e favorecer a formação de uma La Niña. O estudo, que ganhou destaque neste domingo, 12/07/2026, sugere que é possível replicar esse efeito de forma intencional.
A técnica, denominada clareamento de nuvens marinhas (MCB, na sigla em inglês), consiste em borrifar partículas de sal na atmosfera. O objetivo é tornar as nuvens mais reflexivas, fazendo com que uma parcela maior da luz solar retorne ao espaço, em vez de elevar a temperatura das águas do Oceano Pacífico equatorial. A proposta diferencia-se de outras formas de geoengenharia por focar apenas na janela específica de formação do El Niño, evitando um compromisso climático de longo prazo.
Jessica Wan, pesquisadora da Universidade de Chicago que liderou o trabalho, ressalta que a intervenção seria temporária e direcionada. "Se conseguíssemos atuar sobre a variabilidade natural, poderíamos obter benefícios sem precisar aplicar a geoengenharia indefinidamente", explica. As simulações feitas pela equipe indicam que o sucesso da contenção depende diretamente da precocidade da intervenção; aplicações feitas apenas no auge do El Niño mostraram pouco impacto.
Apesar do potencial, o trabalho é tratado como uma prova de conceito e não um plano de ação imediato. Especialistas independentes, como Carlos García-Soto, do CSIC (Instituto Espanhol de Oceanografia), reforçam a necessidade de cautela. Segundo o pesquisador, modificar um sistema tão complexo exige níveis de evidência superiores aos atuais. Além disso, as simulações apontaram que o uso da técnica poderia antecipar ou intensificar a chegada de uma La Niña subsequente, evidenciando que qualquer alteração no sistema climático pode gerar efeitos colaterais imprevisíveis.
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