ALERTA CLIMÁTICO

Brasil se prepara para El Niño de força incerta, com riscos para Sul e Norte

Vista aérea de enchentes no centro histórico, com voluntários atuando.
Enchentes no Brasil, como as que ocorreram no Rio Grande do Sul em 2024, reforçam a necessidade de preparação para eventos climáticos extremos.

Fenômeno no Pacífico pode trazer chuvas intensas ao Sul e secas severas ao Norte do país, evidenciando desafios na adaptação climática.

A formação de um novo episódio de El Niño, com intensidade ainda incerta, mobiliza o Brasil para o enfrentamento de impactos climáticos que podem se manifestar de forma distinta entre as regiões do país. Cientistas monitoram o Oceano Pacífico para determinar a força do fenômeno, que historicamente altera padrões de chuva e temperatura, com potencial para agravar secas, intensificar chuvas e aumentar o risco de ondas de calor. A comunidade científica aponta uma probabilidade de 90% para o retorno do El Niño neste ano, com potencial para atingir forte intensidade, conforme comunicado da Organização Meteorológica Mundial (OMM) em 2 de junho de 2026.

Acompanhamento de satélites e boias marítimas detectam o aquecimento da superfície do Oceano Pacífico, indicando a formação do fenômeno. Tércio Ambrizzi, professor de Ciências Atmosféricas da USP, sugere que a tendência é de um El Niño moderado a forte, descartando o termo 'super El Niño'. O aquecimento da superfície do Pacífico na região equatorial, mantido acima de 0,5 ºC por um período prolongado, é a condição para a caracterização do El Niño, que tem sido observada desde fevereiro. A determinação da área de maior aquecimento no oceano será crucial para prever como os efeitos se manifestarão em solo brasileiro.

José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, antecipa que os primeiros sinais no Sul do Brasil, com aumento das chuvas, podem surgir já na primavera. Em contrapartida, o Norte, especialmente a Amazônia, e parte do Nordeste podem enfrentar intensificação da seca durante o inverno e o início do verão. Essa condição climática pode favorecer a ocorrência de queimadas e impactar a produção agrícola nessas regiões. A OMM também alerta que as condições do El Niño podem exacerbar os efeitos do aquecimento global, tornando os impactos mais severos e rápidos.

O potencial de um El Niño de forte intensidade gera debates sobre seus efeitos na economia e no agronegócio brasileiro. A Defesa Civil Nacional, em articulação com estados, municípios e órgãos como Cemaden e Inmet, monitora constantemente as condições climáticas. O órgão informou que o foco atual é o monitoramento e a preparação antecipada para cenários críticos, com o objetivo de garantir alertas e medidas oportunas. A última edição do fenômeno, entre 2023 e 2024, esteve entre as cinco mais intensas registradas, contribuindo para temperaturas globais recordes e eventos extremos, como as devastadoras enchentes no Rio Grande do Sul em 2024.

Especialistas ressaltam a necessidade de ir além da preparação para eventos específicos e focar em uma agenda permanente de planejamento e resiliência. Victor Marchezini, sociólogo do Cemaden, enfatiza que os territórios devem estar preparados independentemente de alertas pontuais. A comunicação clara do risco e a priorização de investimentos em adaptação climática nas comunidades mais vulneráveis são apontadas como desafios. Thaynah Gutierrez, secretária-executiva da Rede por Adaptação Antirracista, critica a falta de investimentos públicos e a necessidade de responsabilização dos governos para garantir que os recursos destinados à prevenção e adaptação sejam efetivamente utilizados. A observação de que alguns estados, como Santa Catarina, decretaram estado de alerta climático, mas apresentaram baixa execução orçamentária em prevenção de desastres em 2025, ilustra essa preocupação. O ano eleitoral de 2026 intensifica o debate sobre a alocação responsável de recursos públicos para a segurança climática.

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