POTENCIAL EM RISCO

Brasil busca superar gargalos tecnológicos e ambientais para explorar terras-raras

Imagem de minerais de terras-raras em garimpo ou exploração.
Minerais de terras-raras em processo de exploração.

Apesar de deter a segunda maior reserva mundial, o país ainda necessita de unidades de refino e separação para consolidar sua cadeia produtiva e suprir a demanda global.

O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras-raras, um grupo de 17 elementos essenciais para a fabricação de tecnologias de ponta, como veículos elétricos e smartphones. Contudo, o país enfrenta desafios tecnológicos e ambientais significativos que impedem a plena exploração desse potencial. A consolidação de uma cadeia produtiva nacional depende da construção de unidades de separação e refino, além do domínio na produção de ímãs permanentes de alta potência.

A análise é de Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), que apresentou o cenário durante a FAPESP Week em Londres, nos dias 2 a 4 de junho de 2026. O evento buscou intensificar a cooperação científica entre pesquisadores paulistas e do Reino Unido em áreas estratégicas.

Landgraf ressalta que as reservas representam apenas uma fração do potencial do setor, sendo a capacidade de obtenção do carbonato, o composto precursor dos 17 elementos, o fator determinante. Este carbonato é a matéria-prima fundamental para a fabricação de ímãs de alta potência, item central na disputa tecnológica global entre Estados Unidos e China.

A demanda anual global por ímãs de alta potência pode chegar a 150 mil toneladas, exigindo cerca de 300 mil toneladas de carbonato. Com uma produção anual estimada em 20 mil toneladas, as mineradoras brasileiras atenderiam menos de 6% dessa necessidade. No entanto, esse quadro pode mudar com os projetos de mineração em andamento no país, incluindo duas operações já em fase de produção em Minaçu (GO) e São Francisco de Itabapoana (RJ).

Desafios ambientais e tecnológicos

Um dos primeiros obstáculos identificados é de ordem ambiental: a ausência de parâmetros consolidados para monitorar e mitigar os impactos químicos da mineração. Landgraf aponta a necessidade de maior transparência por parte das mineradoras nesse processo, que ainda é uma questão aberta do ponto de vista tecnológico.

O principal gargalo tecnológico reside na separação dos elementos. As argilas iônicas encontradas no Brasil apresentam composições variadas, complexificando a concentração de elementos mais valiosos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. O processo requer o domínio da tecnologia de extração por solventes e a capacidade de lidar com contaminantes como óxidos de alumínio e ferro.

O desenvolvimento da produção local de extratantes químicos, utilizados nesse processo, também é crucial. A China, com décadas de experiência, compartilha poucas informações técnicas, tornando o aprendizado científico desafiador. Uma frente promissora de cooperação com o Reino Unido reside na fabricação de ímãs e no monitoramento ambiental da mineração.

Desenvolvimento de competências

O Brasil já possui uma base científica sólida para avançar. O INCT Patria, criado em 2014, e o INCT Materia, lançado mais recentemente, reúnem pesquisadores de diversas instituições para desenvolver tecnologias e aplicações voltadas aos superímãs e à transição energética. Pesquisas avançadas em separação de elementos e obtenção de neodímio metálico e ligas ferro-neodímio-boro são realizadas em centros como o Cetem, Poli-USP e IPT.

Iniciativas como a fabricação de ímãs por impressão 3D e a implantação de um laboratório-fábrica em Minas Gerais indicam um avanço concreto. Este último projeto, do Centro de Inovação e Tecnologia do Senai com apoio da UFSC, prevê um período de aproximadamente dois anos para atingir a qualidade exigida pelo mercado. A expertise consolidada nesses anos permitirá ao Brasil dar passos firmes na cadeia produtiva de terras-raras.

Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 3 de maio de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.

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