ABERTURA COMERCIAL CRÍTICA

Abertura comercial do Brasil se intensifica como escudo contra tarifas dos EUA

Luis Rua em entrevista
Luis Rua, secretário de Relações Exteriores do Ministério da Agricultura, defende a abertura de mercados como forma de criar oportunidades.

Enquanto o governo busca diversificar mercados para reduzir dependência, especialistas apontam que o país ainda figura entre as economias mais fechadas do mundo. Nova ameaça de tarifas dos Estados Unidos intensifica o debate.

O governo federal ampliou sua estratégia de abertura comercial internacional, buscando diversificar destinos de exportação e reduzir a dependência de poucos mercados. A iniciativa, que visa fortalecer a economia brasileira diante de potenciais choques externos, como o recente anúncio de novas tarifas pelos Estados Unidos, ganhou contornos ainda mais críticos com a sinalização de barreiras comerciais por parte de Washington. Nesta quinta-feira, 04/06/2026, a decisão de intensificar essa ofensiva ganha destaque na agenda econômica.

Luis Rua, secretário de Relações Exteriores do Ministério da Agricultura, destacou que "abrir mercados é criar oportunidades". Segundo ele, a diversificação "influencia para não haver dependência de quaisquer mercados em específico. Significa mais exportações, mais renda, mais destinos para os produtos brasileiros e menos dependência de poucos compradores". Os resultados já são perceptíveis: no agronegócio, um dos pilares do PIB nacional, o alcance de mercados subiu de 555 ao final de 2025 para 616 atualmente. O país já colhe mais de US$ 5 bilhões em exportações associadas a novos mercados conquistados, além de gerar oportunidades para cooperativas e pequenos e médios produtores.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) reforça o compromisso do governo com a ampliação das exportações de bens industriais. A pasta cita a política industrial Nova Indústria Brasil (NIB), linhas de crédito do BNDES e do Banco do Brasil, missões internacionais e o trabalho da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) como iniciativas-chave. No âmbito do Mercosul, o Brasil celebrou acordos de livre comércio com Singapura, a União Europeia (UE) e a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta), e mira negociações com México, Canadá, Emirados Árabes, países da América Central e da Ásia.

Welber Barral, árbitro da OMC e ex-secretário de Comércio Exterior, eleva a discussão ao afirmar que a abertura comercial transcendeu a esfera econômica, tornando-se uma questão de segurança nacional. "A abertura comercial hoje precisa ser pensada junto com resiliência, diversificação e capacidade de defesa institucional", ressalta, defendendo uma abertura "inteligente", que reduza dependências excessivas e preserve a autonomia estratégica do país.

No entanto, especialistas alertam que o caminho para uma economia plenamente aberta ainda é longo. Otaviano Canuto, com passagens pelo Banco Mundial e FMI, aponta que "o Brasil está entre as economias mais fechadas comercialmente do mundo", tanto em proporção de exportações e importações no PIB quanto em tarifas e barreiras não-tarifárias. Em 2025, as exportações representaram 15,4% do PIB, estimado em cerca de US$ 2,268 trilhões. "Se você se refere à diversificação do comércio bilateral, melhorou no período mais recente. Mas continua comercialmente fechada", avalia Canuto.

Em casos de choques externos, como um possível "tarifaço" dos Estados Unidos, a menor capacidade de realocação rápida das exportações brasileiras pode gerar pressão sobre margens e competitividade. Barral pondera que "um país com maior rede de acordos teria mais capacidade de absorver o choque". Diante desse cenário, o governo lançou o Plano Brasil Soberano, com recursos destinados à diversificação de destinos de exportação, e ampliou seu atendimento para empresas impactadas por tarifas ou conflitos internacionais.

A ameaça de novas tarifas americanas ressurge com força. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs a imposição de tarifas de 25% sobre a maioria das importações brasileiras, alegando insegurança jurídica e competição desleal em áreas como comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, patentes e etanol. O governo brasileiro, em articulação com o setor privado, contesta as alegações e busca mitigar os impactos. Paralelamente, o Executivo publicou em 03 de junho de 2026 uma portaria ampliando o atendimento do Plano Brasil Soberano.

Especialistas, como Roberto Dumas, professor de Economia do Insper, reiteram a necessidade de diversificar parceiros comerciais e encurtar distâncias, especialmente após eventos globais como a pandemia e a guerra na Ucrânia. "A gente sabe que não dá para confiar num país só", afirma Dumas. Luis Rua garante que o país "seguirá estratégia constante de abertura e ampliação de mercados", com novos anúncios previstos para a próxima semana, reforçando a aposta em acordos internacionais como pilar de segurança e prosperidade.

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