MODELO DE SEGURANÇA
A vida em El Salvador sob regime de exceção de Nayib Bukele
Após quatro anos de medidas drásticas, país celebra queda recorde na criminalidade, mas enfrenta questionamentos sobre autoritarismo e pobreza crescente.
A transformação de El Salvador nos últimos anos, marcada pela drástica redução da violência, trouxe alívio para comunidades anteriormente dominadas por facções, mas impôs um custo elevado ao equilíbrio institucional e à vida privada. A mudança de cenário consolidou-se a partir de 2022, quando o Congresso, alinhado ao presidente Nayib Bukele, decretou um regime de exceção com o objetivo de desmantelar organizações criminosas como a Barrio 18 e a Mara Salvatrucha.
O decreto permitiu que o Estado realizasse prisões sem mandado e restringisse o acesso a defesas formais. Desde então, cerca de 90 mil pessoas foram encarceradas sob a acusação de vínculos com o crime organizado. Enquanto moradores relatam uma sensação inédita de liberdade em bairros como a Campanera, onde a rotina já não é mais ditada pelo medo, outros setores da sociedade apontam um ambiente de intimidação contra qualquer crítica ao governo.
O Judiciário também passou por uma reestruturação profunda. Em 2021, a Assembleia Legislativa destituiu juízes da Sala Constitucional, órgão com atribuições similares ao Supremo Tribunal Federal, substituindo-os por magistrados alinhados ao Poder Executivo. Com o controle das instituições e a possibilidade de reeleições ilimitadas, Nayib Bukele mantém índices de aprovação superiores a 67%.
No entanto, a prosperidade é desigual. Apesar do crescimento econômico de 3,9% em 2025, dados do Banco Mundial indicam que a proporção de famílias abaixo da linha da pobreza subiu de 22,8% para 27,2% entre 2019 e 2023. Para críticos e moradores, as reformas urbanísticas, como as realizadas no centro de San Salvador, funcionam como uma vitrine que mascara o desemprego e o aumento do custo de vida que afetam a maioria da população.
O modelo de gestão de Nayib Bukele tornou-se uma referência para lideranças políticas na América Latina e no Brasil, incluindo nomes como Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, que avaliam a viabilidade de métodos semelhantes. Contudo, analistas alertam que o foco exclusivo na repressão pode ignorar as causas estruturais da violência, como a desigualdade social, deixando um legado de incertezas para o futuro democrático do país.
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